Retorno, trauma, palavra

Lícofron, Freud e os extremos da linguagem

Autores

  • Pedro Fernandez de Souza UFSCar

DOI:

https://doi.org/10.24277/classica.v35i1.970

Palavras-chave:

Alexandra; retorno; trauma; repetição; Freud; palavra.

Resumo

Neste artigo, buscamos estudar a ocorrência do termo νόστος no poema Alexandra, de Lícofron. Numa primeira mirada, o poema parece povoado pelos vários retornos dos gregos, terminada a guerra em Troia; olhando-o mais de perto, porém, descobre-se que o Alexandra entretece, antes, os seus não-retornos, visto que sempre o naufrágio ou a catástrofe acomete os retornantes helenos. O motivo dessa reversão, achamo-lo na sina da própria narradora do poema, Alexandra-Cassandra: tendo sido estuprada por Ájax, teve seu ultraje vingado por Atena, em cujo templo a violência foi perpetrada. Assim, a agressão sofrida por Cassandra reverbera no futuro, causando a ruína de muitos gregos. Fazendo um pequeno desvio em nossa rota, encontramos em Freud, na sua descrição do trauma, o retorno de uma situação irreversível e disruptiva, que reverbera no futuro: o sujeito traumatizado é compelido a retornar repetidamente à situação traumática. Trata-se de um esquema similar ao da narrativa de Lícofron, mas, se em Freud a repetição se opera previamente à palavra, no poema helenístico o que se tem é uma pletora quase incompreensível de palavras (as profecias de Cassandra). Estaríamos, assim, entre dois extremos da linguagem – entre eles, o trauma, a sina, e o retorno impossível à coisa que nos obriga a dizer qualquer coisa.

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Biografia do Autor

Pedro Fernandez de Souza, UFSCar

Formado em psicologia pela Universidade de São Paulo em 2017. Mestre em Filosofia da Psicanálise pela UFSCar (defesa da dissertação intitulada "O estatuto da fantasia no corpus teórico freudiano", em novembro de 2020). Atualmente, é doutorando em Filosofia da Psicanálise pela UFSCar.

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Publicado

2022-03-24

Como Citar

Souza, P. F. de . (2022). Retorno, trauma, palavra : Lícofron, Freud e os extremos da linguagem. Classica - Revista Brasileira De Estudos Clássicos, 35(1), 1–14. https://doi.org/10.24277/classica.v35i1.970