In media barbaria, ille ego romanus vates: etnografia e autoridade nos Tristia de Ovídio

Cecilia Marcela Ugartemendía

Resumo


Durante seu exílio em Tomos, Ovídio escuda-se na ideia de declínio poético e linguístico, causado pela hostilidade do entorno. A adversidade do lugar em que deve cumprir a relegatio é o argumento para justificar a queda na qualidade de sua produção poética. Neste trabalho, propomos analisar aspectos da descrição etnográfica e geográfica apresentada por Ovídio nos Tristia 3.10 e 5.7, com o objetivo de adicionar mais elementos à longa tradição de estudos dedicados a demonstrar que a ideia de declínio é mais um artificio retórico na construção da persona relegata. Para tanto, a discussão será delimitada pela construção do eu poético como autoridade no tratamento do sofrimento do exílio. Em primeiro lugar, são analisados trechos de Tr. 3.10, dedicados à descrição etnográfica e geográfica da Cítia, na qual se destaca o manejo da sintaxe mimética. Em seguida, oferecemos diferentes observações sobre a já muito comentada intertextualidade entre esta epístola e a descrição da Cítia oferecida por Vírgilio em Geórgicas 3.349-83, destacando que as diferenças entre uma e outra descrição atendem à construção da autoridade de Ovídio como exilado, inclusive ao se arrogar o “direito de corrigir” o poeta anterior. Em segundo lugar, buscamos comprovar que, em Tr. 5.7, Ovídio relegatus continua a se construir como autoridade, reivindicando, no meio de sua aparente barbarização, seu lugar como grande Romanus vates.


Palavras-chave


Tristia; Ovídio; etnografia; autoridade poética.

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DOI: https://doi.org/10.24277/classica.v33i1.832

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