Uma visão periegemática sobre a écfrase

Paulo Martins

Resumo


Opero neste artigo três objetivos. Primeiramente, ofereço um panorama sobre a teorização antiga e moderna da écfrase, apresentando elementos que a caracterizam como procedimento retórico-poético a serviço da elocução e da argumentação, ou modernamente a serviço da descrição de uma obra artística – Kunstbeschreibung. Em segundo lugar, apresento como as écfrases, em seu matiz antigo, podem ser apresentadas ora como um elemento da narração que a contém como narrativa – interventive ekphrasis de acordo com Elsner (2002) –, operando especificidades intrínsecas como procedimento contido num gênero continente e a ele subordinado; ora como essas podem apresentar características extrínsecas, como gênero independente, autônomo e isolado em que não estão sujeitas à subordinação argumentativa ou figurativa do gênero, já que são self-standing. O terceiro objetivo, corolário dos dois iniciais, é extrair da observação desses dois tipos de écfrase aquela que serve a um gênero – a que chamo hipotática – e aquela que pode ser entendida como gênero – a que nomeio como paratática –, como suas séries históricas, dependentes de um gênero que as contenha, ou dele independentes, engendram sentidos que podem ser articulados e aferidos a partir de um todo unificador que pode ser, por exemplo, a série de escudos (Homero, Hesíodo, Virgílio, Sílio Itálico) ou a série de descrições presentes numa coleção de écfrases, imagines ou εἰκόνες, (de Filóstrato, o velho e o jovem, e Calístrato) que devem ser observadas em conjunto a formar um todo. Em ambos os casos, uma τάξις ou ordo, acredito, imprime às peças particulares sentidos advindos de uma sintaxe “extra ou intragenérica”, que lhes confere sentido próprio.


Palavras-chave


Visualidade; écfrase; enargia; Progymnásmata; retórica; poética.

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DOI: https://doi.org/10.24277/classica.v29i2.425

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