Abordagens mitológicas na iconografia funerária da cerâmica ática (510-450 A.C.): repensando a periodização

Fábio Vergara Cerqueira

Resumo


Este artigo tem por objetivo estudar a iconogra­fia funerária registrada sobre a cerâmica ática, e, em especial, a produção do que chamamos fase intermediária (510 – 450a.C.), que tem despertado menos atenção dos estudiosos, mais voltados à compreensão do período anterior, dos alabas­tros e lutróforos de figuras negras do século VI, precipuamen­te com cenas de “velório”, ou do período posterior, dos lécitos brancos prolícromos com cena de visita ao túmulo. Aponto que, através de abordagens mitológicas, de Musas, Sereias e Eros, esta fase, que durou de duas a três gerações de pintores, apresenta uma unidade cultural, no sentido da emergência de visões alternativas da morte, ao retirar a atenção dos rituais da pólis e da família. É neste contexto que se destaca a ico­nografia destes personagens mitológicos, cuja ligação com a música determina a sua ligação com a morte. A ambivalência das Sereias corresponde a uma ambiguidade das concepções de morte que lhes eram relacionadas, oscilando entre uma vi­são ctônica, temível, no mundo inferior, e uma visão celestial, de bem-aventurança, num mundo superior. A “pitagorização” da iconografia das Sereias, como musicistas tocando lýra ou aulós, corresponde a uma expectativa mais positiva do além­-túmulo, sob a proteção das divindades musicais.  


Palavras-chave


Grécia antiga; Morte; Iconografia funerária; Mitologia; Cerâmica.

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DOI: https://doi.org/10.24277/classica.v27i1.336

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