A alteridade indígena no poema épico de Anchieta

João Bortolanza

Resumo


No poema épico De Gestis Mendi de Saa, o Padre José de Anchieta considera os habitantes nativos do Brasil, as Brasilles gentes, como barbara gens, além de superba, crudelis, effrenis, atrox, indómita, dira e inhumana, entre outros muitos qualificativos, como justificativa para a ação catequética dos Jesuítas e para a dominação colonizadora do Governador Geral Mem de Sá. No espírito das Cruzadas, a Contra-Reforma opõe dois campos: de um lado, os católicos e civilizados europeus; de outro, os pagãos e rudes brasilíndios. Já na proposição, o poeta deixa claro seu intento: (Rex Christe), tua maxima facta / aggrediar versu memorare, ingentibus ausis: magna quíbus nuper tua mittere lumina virtus/inter barberiem coepit Brasillibus oris (v. 111-114) Herói divino, Cristo Rei, age através do herói humano - magnanimum heroem Mendum (v. 164) - cujos grandes feitos consistem em eruere e Stygio Brasilles cárcere mentes (v. 177). Os costumes exóticos dos indígenas, suas festas e danças, seus sacerdotes, crenças e ritos, seu modus vivendi, seu próprio habitat passam a formar um cenário, não apenas “bárbaro”, mas “diabólico e infernal”. Será essa demonização do índio e de seus costumes o cenário dessa primeira grande epopéia das Américas (1563), com 3135 versos vazados em Latim Clássico pelo grande Humanista Anchieta.

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Referências


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DOI: https://doi.org/10.24277/classica.v15i15/16.284

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