Pólis: comunidade, política e a vida em comum numa leitura da Política de Aristóteles

Marta Mega de Andrade

Resumo


Considero neste artigo um contexto ateniense para a primeira teoria política grega entre o final do V e meados do IV século, discutindo que tipo de “filosofia” sobre as práticas dos cidadãos precedem a teoria e como se desdobra, então, a chamada “teoria” na Política, de Aristóteles. Esse contexto, tanto no âmbito das escolas filosóficas quanto na produção escrita da Atenas clássica, deve nos auxiliar – dentro das limitações desse artigo dedicado a uma leitura histórica da Política, de Aristóteles – a explorar e contribuir para uma concepção da pólis como comunidade política,  na medida que considero a noção de comunidade política calcada em Aristóteles muito diferente da nossa noção de estado ou de cidade-estado, como espero poder demonstrar. Em terceiro lugar, gostaria de apontar algumas implicações da abertura da noção de vida comum (koinós), o que significa sua distinção das amarras com as quais costumamos prendê-la à polis ao identificar o "público" (pólis) com o koinos (interesse comum) e o "privado" (oikos) com o idios (interesse particular). Indico desde já que considero essas implicações como um subproduto dos argumentos do autor da Política, e não sua tarefa consciente ou principal. E espero poder demonstrar que a importância do koinos para a compreensão da polis coloca-nos em presença de mais agentes no espaço político do que simplesmente o grupo de cidadãos que “governa”, ou seja, que “pratica a pólis”.


Palavras-chave


Aristóteles; Política; pólis

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DOI: http://dx.doi.org/10.24277/classica.v28i1.249

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